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29 de mai. de 2008

Drummond, sempre Drummond


'Mesmo antes de nascer,
já tinha alguém torcendo por você.


Tinha gente que torcia para você ser menino.

Outros torciam para você ser menina.

Torciam para você puxar a beleza da mãe,

o bom humor do pai.
Estavam torcendo para você nascer perfeito.


Daí continuaram torcendo.

Torceram pelo seu primeiro sorriso, pela
primeira palavra , pelo primeiro passo.

O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida.

E de tanto torcerem por você,

você aprendeu a torcer.
Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel.

Torcia o nariz para o quiabo e a escarola.

Mas torcia por hambúrguer e refrigerante.



Começou a torcer até para um time.

Provavelmente, nesse dia, você descobriu que tem gente que torce diferente de você.

Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes,

estudar inglês e piano.

Eles só estavam torcendo para

você ser uma pessoa bacana.


Seus amigos torciam para você usar brinco,

cabular aula, falar palavrão.

Eles também estavam torcendo para você ser bacana.

Nessas horas, você só torcia para não ter nascido.

E por não saber pelo que você torcia, torcia torcido.

Torceu para seus irmãos se ferrarem, torceu para o mundo explodir.



E quando os hormônios começaram a torcer,

torceu pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso.

Depois começou a torcer pela sua liberdade.

Torcia para viajar com a turma, ficar até tarde na rua.

Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa.

Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã, para as idéias dos
professores e para qualquer opinião dos seus pais.

Todo mundo queria era torcer o seu pescoço.


Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceu para ser médico, músico, advogado.

Na dúvida, torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol.

Seus pais torciam para passar logo essa fase.
No dia do vestibular, uma grande torcida se formou. Pais, avós, vizinhos, namoradas e todos os santos torceram por você.


Na faculdade, então, era torcida pra todo lado. Para a direita, esquerda, contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina.

E, de torcida em torcida, um dia teve um torcicolo de tanto olhar para ela.


Primeiro, torceu para ela não ter outro.

Torceu para ela não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito magro.

Descobriu que ela torcia igual a você.

E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho.


Torceram para ganhar a geladeira, o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel.

E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida.



Porque, mesmo antes do seu filho nascer, já tinha muita gente torcendo por ele.

Mesmo com toda essa torcida,

pode ser que você ainda não tenha conquistado
algumas coisas.

Mas muita gente ainda torce por você!

Se procurar bem você acaba encontrando.

Não a explicação (duvidosa), mas a poesia (inexplicável) da vida.'


Carlos Drummond de Andrade

21 de fev. de 2008

Elfo além-mar


Nos céus distantes,
Sobre as nuvens, cama de algodão que parecem sutentar tudo,
Se desloca na velocidade da luz
Na cadência de sons maviosos,
O Elfo dos Elfos!

Rumo às montanhas bascas
Em meio às brumas dos Pirineus
Em terra mística, sagrada
Com seres mágicos e de extrema sensibilidade
Vai transformar das pessoas
Transmitir sensibilidade
Expressar suas paixões
E transformar um pequeño pueblo numa imensidão
Sob o som que esculpe,
Com seus gestos fluidos e magnéticos
Fazendo com que seus comandados
Entreguem-se, completamente,
À magia de seu comando magistral.

Maestro da Natureza, Dono da floresta
Onde a Fada transita sob o efeito de seus poderes!

Mesmo longe, com um oceano de distância,
Sua presença está nos detalhes,
Nos traços deixados junto ao leito,
Nas nuances de emoção que desperta
E no olhar vago que a Fada apresenta, já na aurora,
Esquadrinhando a imensidão azul,
Direcionando seus pensamentos à Estrela Polar,
Onde seu Maestro-Elfo estará,
Ativo, altivo, magnético, sensível e amoroso,
Regendo o Mundo!




6 de dez. de 2007

Pedido

Num momento de silência
A dor se revela forte,
indestrutível
Mas, maior dor não existe
Do que a de se saber...
Substituível!

Peço-te, então,
Não me ame!
Aceite-me, pois,
Compreenda-me por fim

Mas por favor
Não me dê amor
E então amor
Não terás de mim!

7 de nov. de 2007

Poesia de Aparecida Torneros, jornalista

assim ela passa
sem nome, um rosto a mais
na multidão, lá vai, com seu passo apressado...
tem olhos que buscam o chão e o céu, passeiam...
seus olhos passeiam sobre as pessoas que a circundam...
ela passa e seus olhos passeiam..ela se vai...se perde...
mistura-se ao mundo, suas cores se diluem, seus pés se apagam,
seus braços se borram de tantos outros braços, sem afagos,circundam...
suas pernas se apressam, seu rosto se contrai em ânsias de ser compreendido...

terá ela um coração partido?
será ela um ser de sentido bem vivido?
terá ela a dúvida do ato falho e surpreso?
que grito terá ela na garganta deixado preso?
quantas vezes terá sonhado com a luz do infinito?
ou terá se rendido à desilusão de descrer de tanto mito?

lá vai ela, passa, passeia, na passarela da avenida em trânsito
ela me faz emergir em transe, cada vez que sua testa franze,
seu semblante me indica preocupação, tensão, correria, difuso âmbito,
ela está nas ruas como está nos bares, nas noites, como nos dias,
ela é parte integrante da desintegração da espécie, é criatura passante,
é ávida de maratona, é pululante, pulsante, equilibra-se nos saltos, arfante...

assim, ela me perpassa os olhos, me deixa lembrança, ainda que expressa,
como o café com pressa, qualquer segundo cometa que me ultrapassa, lépido,
sou como seu espelho retrovisor, mal ela se vai, sua imagem some, em mim,
quase nada ficou, talvez um rastro de luz, talvez a saudade dela, o épico,
da sua passagem, trago assim, o lamento bobo de não saber seu nome, intrépido,
me disponho a nomeá-la , apelidá-la, chamá-la como se convida com um psiu,
pois ela já está distante agora, além de mim, quem mais será que a viu?

Aparecida Torneros
26/08/2007

18 de mar. de 2007

ESCRAVO-SENHOR



Sou teu escravo-senhor

quando em meus sonhos intermináveis

fico escravizado à tua imagem

Sou teu senhor

quando em meus sonhos

te ordeno que te curves a meus pés

e me sirvas como a um Rei.

Tu me obrigas a sonhar

e em meus sonhos te escravizo.

Lá, a tua vontade é minha

teu sorriso, teu rosto,

teus lábios.

És uma escrava vestida de Rainha

Ficas a meus pés com cetro e coroa.

Emerge das flores

e se dilui nas fontes.

Cantas ao meu sinal

e te tornas um anjo

na hora de dormir.

Então, eu, Senhor

cumpro a tua ordem

encerro o meu sonho

e volto a ser escravo

das horas que me separam

do nosso próximo encontro,

ainda que em sonhos.

by J. Genuncio

Rio, 11/12/92.

31 de dez. de 2006

Esperança


(Mário Quintana)


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocaremAtira-se
E
— ó delicioso vôo!


Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho,
para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

23 de dez. de 2006

O Pequeno Príncipe

Esta é a História de um Homem e sua visão do amor ingênuo, do amor possível, do amor que cria laços e, na sua pureza, nos toca profundamente.


Esta é a minha Mensagem de Natal.


Que haja, sempre, um Pequeno Príncipe dentro de nós!




O Pequeno Príncipe


(Antoine de Saint-Exupéry)



Capítulo XXI



E foi então que apareceu a raposa:
- Boa dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...

No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

20 de dez. de 2006

Manoel de Barros

Quem é este Poeta das coisas mágicas e comuns?

Ontem (dia 19/12), o Poeta Manoel de Barros, um assombro pantaneiro, completou 90 anos!
Vale a pena conhecê-lo.
Para quem não o conhece, segue o link da Biografia deste Mago das Palavras, que subverte os conceitos doutrinários da língua portuguesa, reinventando palavras e significados na simplicidade matogrossense.


Abaixo, transcrevo uma poesia, amostra grátis do poder das idéias deste Patrimônio Cultural brasileiro, antenado embora alijado do circuito Rio-São Paulo, para aqueles que são amantes da cultura:

O Livro sobre Nada

Manoel de Barros
  • Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
  • Tudo que não invento é falso.
  • Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
  • Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
  • É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
  • Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
  • Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
  • A inércia é o meu ato principal.
  • Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
  • O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
  • A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
  • Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
  • Por pudor sou impuro.
  • Não preciso do fim para chegar.
  • De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
  • Do lugar onde estou já fui embora.

MANOEL DE BARROS, poeta e fazendeiro mato-grossense, nasceu em 1916 e teve seu primeiro livro publicado em 1937 - Poemas concebidos sem pecado. Passou a ser mais conhecido a partir do ano de 1997, quando ganhou o prêmio Nestlé de Literatura. De seu "Livro sobre Nada", Editora Record - Rio de Janeiro,1997, págs. diversas, já em 5ª edição, extraímos os versos acima. Nele o autor diz, a título de "Pretexto":
"O que eu gostaria de fazer é um livro sobre nada. Foi o que escreveu Flaubert a uma sua amiga em 1852. Li nas Cartas exemplares organizadas por Duda Machado. Ali se vê que o nada de Flaubert não seria o nada existencial, o nada metafísico. Ele queria o livro que não tem quase tema e se sustente só pelo estilo. Mas o nada de meu livro é nada mesmo. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo, etc, etc. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora."Saiba mais sobre o autor e sua obra visitando".
Plim-Plim

15 de dez. de 2006

Noções


(Cecília Meireles)

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

+F

9 de dez. de 2006

Jasmin



O céu está prateando
Com a luz da lua cheia nascente
Trazendo seu rastro branco
Em brumas leves e diáfanas
Que vão orvalhar o jasmin,
O doce jasmin que perfuma a noite
E que traz tua impressão, que vislumbro...

Te vejo cortando a cidade,
Ziguezagueando entre os carros e
Transpassando lagos, lagoas e pontes...
Perfurando túneis e saindo ileso
Para mais uma noite de repouso
Ate´a manhã chegar,
Com sua rotina ferrenha
Que te leva além túnel
Para mais longe de mim...

Mas o jasmin deixa em seu olor
A impressão da presença difusa
Que, mesmo distanciando-se,
Não deixa meu coração
Dormir vazio...
Esperando aconchegar
Teu corpo em mim
Numa sensação esperada, desejada
Que venha marcar indelevelmente
Teu ser, a tal ponto conectado a mim
Que teu sol só brilhe nos meus céus,
Que teu sangue só corra, desimpedido,
Em minhas veias saudáveis
E que farão teu coração remoçar
Na esperança de bater em sintonia
Com o meu, que distante,
Nunca esteve tão próximo...

Ah, deixa o jasmin transportar
Minha presença sobre as montanhas
Cruzando a cidade e me fazendo permanente
Na sala árida da tua rotina despótica...
Sinta o cheiro, doce e embriagador
Dos meus sonhos...
Que invadem os teus e que permeiam
A busca ansiosa das almas
Que se completam, no espaço
Que se comunicam, em ondas,
Que se fundem, na paixão!

+F